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Águas-vivas voltam ao mar gaúcho: o que fazer em caso de queimadura

Conforme especialistas, crenças populares podem piorar.

Águas-vivas voltam ao mar gaúcho: o que fazer em caso de queimadura

Uma visitante indesejada voltou a aparecer nas águas do Litoral Norte. As águas-vivas, que infestaram o mar gaúcho no verão passado, retornaram em número razoável nesta temporada com seus temíveis tentáculos carregados de toxina capaz de provocar queimaduras e ardência. Especialistas orientam a jamais seguir crenças populares como aplicar urina, refrigerante ou pasta de dente na pele.

Os relatos de ataques são frequentes. No meio da tarde de segunda-feira, junto à guarita 45, em Arroio do Sal, Maria Eduarda Signorelli Berne, nove anos, saiu do mar com um vergão vermelho na perna e no braço. A mãe, Daniele Duarte Signorelli, 31, já sabia exatamente o que fazer. Como era a quarta queimadura da menina em menos de uma semana, correu para os salva-vidas, que já contam com uma garrafinha de vinagre pronta para atender os banhistas mais azarados. Passou o líquido na pele da filha, que apesar do susto voltou para mais um mergulho.

— A coitadinha não está tendo muita sorte, mas a gente trata e logo a dor diminui — diz Daniele.

 

Os quiosques à beira-mar já incluíram o vinagre entre os produtos oferecidos — gratuitamente — aos banhistas. O Doce Quiosque, em Capão da Canoa, dispõe até de dois modelos de borrifador: um normal, em garrafinha transparente, e um envolvido por figuras de girafa, ursinho e leão.

— É que a maioria (das vítimas que buscam auxílio) é criança — explica Rafael Lameira, 19 anos, filho do proprietário do estabelecimento.

Na manhã desta terça-feira, eles haviam ajudado apenas uma banhista, mas, durante o final de semana, contam que esvaziaram a garrafinha inteira de 750 ml. A Operação Golfinho confirma a incidência de mães d'água no litoral, mas não contabiliza o número de ocorrências até o momento. Pelas informações dos salva-vidas, a frequência não é tão elevada quanto no verão passado, considerado um ano atípico pelo major Everton de Souza Dias, chefe da assessoria de comunicação dos bombeiros.

Os próprios salva-vidas estão sofrendo com o toque doloroso das águas-vivas. Ciro da Silva Severo, 39 anos, foi queimado no braço durante o final de semana e, na terça, ainda exibia as marcas. Ele calcula que perto de cem pessoas tenham sofrido lesões semelhantes no sábado e no domingo nas proximidades de sua guarita, em Atlântida Sul.

— A maior parte das mães d'água estava na beira do mar, no raso. Uma criancinha não parava de chorar — conta.

A bióloga do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar) Carla Osório diz que a presença desses animais aumenta conforme a variação das correntes marítimas. Costumam ser trazidos pela chamada Corrente do Brasil, que vem do norte trazendo águas um pouco mais aquecidas e limpas.

— Quando também aumenta o número de banhistas em razão das boas condições do mar, os casos se multiplicam muito — explica a bióloga.

Salva-vidas também enfrentam o problemaFoto: Isadora Neumann / Agencia RBS

Urina não deve ser usada sobre a pele

Há muitas crenças populares envolvendo soluções caseiras ou improvisadas para aliviar a dor infligida pelas águas-vivas. Uma das mais curiosas e disseminadas recomenda o uso de xixi no local atingido. A dermatologista Célia Kalil avisa que se trata de um método a ser evitado pela possibilidade de piorar o problema em vez de ajudar.

— Além de não trazer o benefício esperado, pode até levar a algum tipo de contaminação — avisa a dermatologista.

O Corpo de Bombeiros também condena o uso desse tipo de recurso, assim como o de outros supostos tratamentos como refrigerante de Cola ou pasta de dente. Nem mesmo água doce deve ser aplicada no ponto dolorido, sob risco de aumentar a área afetada pela toxina.

— Para lavar o local, deve-se usar a própria água do mar — orienta a dermatologista.

O tratamento imediato recomendado é a aplicação de vinagre de álcool, sem coloração, na área atingida pelos tentáculos. Se houver complicações, como alterações cardíacas ou respiratórias provocadas por alergia, deve-se buscar atendimento médico de emergência.

Quiosques oferecem borrifadores com vinagre Foto: Isadora Neumann / Agencia RBS

ÁGUAS-VIVAS

COMO PROCEDER EM CASO DE QUEIMADURA

1. Passe água do mar na área afetada para limpá-la. Se parte do tentáculo ficar preso na pele, não tente tirá-lo com a mão. Use água do mar, que pode ser jogada de copo ou balde, até remover os resquícios, ou uma pinça.

2. Aplique vinagre comum, de álcool, sobre a superfície afetada e deixe agir. O ácido acético do vinagre ajuda a neutralizar a queimadura e aliviar a dor.

3. Se formarem-se bolhas mesmo após a aplicação do vinagre, é recomendável procurar um médico — de preferência, um dermatologista.

4. Fique atento a respiração e batimentos cardíacos. Em casos raros, pode haver reação alérgica que exige atendimento médico de urgência.

O QUE NÃO FAZER QUANDO FOR QUEIMADO

- Não aplique urina, refrigerante, pasta de dente ou outros produtos na queimadura. 

- Além de não provocarem efeitos positivos, crenças populares podem agravar o problema.

- Evite lavar a área com água doce. A água pode aumentar a área afetada pela toxina liberada pelo animal.

- Não coce a região da pele que foi atingida

-Não tente mexer em uma água-viva, mesmo que ela pareça já estar morta. As células venenosas do animal podem demorar horas para morrer.