Celular, piquenique e conversa fiada podem tornar um martírio a sessão de cinema
Celular, piquenique e conversa fiada podem tornar um martírio a sessão de cinema

Cidadão atende o celular e repassa, aos gritos, números de agência e conta do banco para seu interlocutor efetuar um depósito. Conversa encerrada, afunda-se na poltrona como se estivesse na sala de casa, ignorando apupos e xingamentos da plateia, e a exibição do filme segue adiante na sala de cinema. Exemplos de falta de educação como esse — ocorrido em um dos cinemas da Capital — testam a paciência daqueles que ainda acreditam que a prazerosa experiência de imersão coletiva diante da tela grande deva transcorrer dentro das regras elementares de civilidade.
Em uma crônica recente, o escritor e cinéfilo Luis Fernando Verissimo narrou, como o desabafo de um espectador a seu analista, o martírio provocado por conversas em tom elevado, barulho de pipocas e balas e luz do smartphone refletida na cara: "É paranoia? É alucinação? É um complô para me convencer de que eu sou um desajustado na vida moderna? Que os bárbaros venceram?”.
Verissimo diz que sua coluna “foi baseada em repetidas experiências próprias”:
— Acontece tanto que a gente acaba se sentindo perseguido. As pessoas estão, decididamente, falando mais, em geral e nos cinemas. E agora tem a praga dos celulares. Não há mensagem num celular que não possa esperar para ser lida no fim do filme, salvo notícia de morte ou nascimento na família.
O manual de convivência na sala escura acompanha a própria evolução do cinema. Já nos primeiros anos do século 20, recomendava-se que damas e cavalheiros retirassem chapelões e cartolas e não fizessem uso de piteiras e charutos para não atrapalhar a visão alheia. Hoje, as grandes redes exibidoras têm como padrão filmetes orientando o desligamento de celulares e o silêncio, normas que, como mostra a enquete promovida por ZH em sua página no Facebook, nem todos acatam.
— Não tem coisa mais desagradável do que gente levantando a toda hora, comendo pipoca, abrindo sacos de salgadinho, comentando o filme durante a exibição. Dá vontade de xingar, mas vai aumentar a confusão — relatou a leitora Marli Silvino.
Há mais de 30 anos exibindo filmes em Porto Alegre, Carlos Schmidt, proprietário do Guion Cinemas, diz que a falta de educação de certos espectadores é cada vez mais perceptível.
— Quanto maior o apelo de público do filme, mais problemas com comportamento e mais sujeira na sala. O celular está fora de controle. Parece que todo mundo é correspondente internacional lidando com notícias urgentes. Em uma sessão dia desses, um casal discutia sobre alguma informação referente ao filme, e a mulher prontamente foi para o telefone checar a dúvida.
Nas salas dos shoppings, outro problema recorrente é o de quem se senta no lugar marcado que não é o seu. Às vezes, o impasse é resolvido com conversa, noutras a esperteza termina em confusão. No passado, existia a figura do lanterninha para, além de orientar, dar uma piscada de luz nos inconvenientes. Com o processo de automação dos cinemas, os grandes exibidores passaram a confiar por demais no bom senso.
Por meio de sua assessora de imprensa, a rede americana Cinemark, uma das maiores em atividade no Brasil, comentou sobre a forma de orientar o comportamento do público em seus espaços, que, aliás, costuma ser a adotada no circuito dos shopping centers: "A Rede Cinemark exibe, antes do início das sessões, um trailer com orientações de segurança e procedimentos a serem adotados, que incluem o desligamento dos aparelhos eletrônicos. Os funcionários estão à disposição dos espectadores para reforçar a importância dos procedimentos".
Em suas três salas instaladas no bairro Cidade Baixa, Schmidt eventualmente reencarna o clássico lanterninha:
– Esses dias, vi uma senhora usando o celular e dei uma piscada de luz. Não adiantou, e fui pedir para ela desligar. Ficou brava, começou a discutir e saiu batendo pé. Estamos em tempos em que o errado é normal e o certo é absurdo.
Dicas de Luis Fernando Verissimo:
— Nada contra comer pipoca no cinema. Eu mesmo faço isso, mas discretamente. E pode-se desembrulhar bala sem transformar o ato num martírio coletivo.
— Um manual de bom comportamento no cinema só precisa ter um mandamento: deixe para conversar em casa!