Chegada de imigrantes muda rotina de centro comunitário em Porto Alegre
Imigrantes mudam rotina de Porto Alegre

A chegada repentina de dezenas de imigrantes alterou a rotina do Centro Humanístico Vida, mantido pela Fundação Gaúcha do Trabalho e Assistência Social (FGTAS), órgão do governo do Rio Grande do Sul, na Zona Norte de Porto Alegre. O número de estrangeiros alojados no local pulou de três para 37 no começo desta semana.
São 31 haitianos e seis senegaleses hospedados em um alojamento na fundação. Destes, 24 chegaram à capital gaúcha de ônibus no último sábado (26), vindos do Acre. O presidente da FGTAS, Juarez Santinon, espera que mais 17 estrangeiros desembarquem nesta semana e que a maioria deles fique no local. O alojamento do Centro Vida atualmente tem estrutura para receber 60 estrangeiros. "Nós sabemos que para eles é importante que estejamos ao lado deles nesta hora difícil", diz Santinon.
Haitianos se reúnem no refeitório, local ondepreparam a própria comida (Foto: Felipe Truda/G1)
O Centro Vida conta com apoio das secretaria dos Direitos Humanos de Porto Alegre e do Rio Grande do Sul para recepcionar os estrangeiros, fornecer a alimentação necessária e ajudá-los a conseguir empregos. "É uma força-tarefa em conjunto que muda a nossa realidade e temos certeza de que, com estes órgãos, devemos dar um alojamento com as condições básicas a eles", diz o presidente da FGTAS.
Os haitianos dormem em colchões no chão dentro de um alojamento. As refeições são preparadas por eles, com alimentos obtidos por meio de doações. "Temos conseguido via banco de alimentos os alimentos não perecíveis. O que falta são os perecíveis, como frango, carne e pão. Até agora, temos nos mantido, mas não temos em sobra", relata o coordenador do Centro Vida, Tiago Pinheiro Machado.
A barreira da linguagem é rompida graças a três haitianos poliglotas – dois falam português e um, espanhol, além do criollo haitiano, idioma semelhante ao francês falado no país caribenho. Um deles é Kendylove Morancy, de 25 anos. Ele veio ao Brasil em busca de emprego. "Não há trabalho suficiente para todas as pessoas [no Haiti]. Todos querem trabalhar, mas não tem trabalho, então buscamos trabalho em outros países", conta.
Kendylove Morancy deixou a namorada no Haiti embusca de um emprego (Foto: Felipe Truda/G1)
Morancy deixou a namorada no Haiti e espera poder ter condições de trazê-la para viver com ele no Brasil. "Tenho de encontrar uma oportunidade para isso. Por enquanto, não posso dizer que vai ser fácil para mim, porque não tenho oportunidade, não estou trabalhando. Mas algum dia ela virá, se Deus quiser", confia.
Além de contarem com a estrutura, os imigrantes poderão passar por cursos profissionalizantes dentro do centro comunitário, nas áreas de alimentação, que abrange noções de culinária e higienização, hotelaria e limpeza geral.
Santinon destaca que a permanência dos imigrantes no local será temporária. "É um auxílio inicial para que, justamente, se sintam amparados para buscar essas vagas que são oferecidas no mercado", afirma o presidente da fundação.
Segundo o presidente da FGTAS, os imigrantes acabam ocupando postos de trabalho que não despertam interesse de brasileiros. "É importante ressaltar que as pessoas não tenham aquela compreensão de que eles estão vindo para tirar o espaço de outras pessoas. Eles estão passando dificuldades em seus países, e o Brasil ainda tem possiblidade de acolhê-los. Tem empresas que querem a mão de obra estrangeira, então encaminhamos eles para estas vagas, mas não há privilégios", diz.
Interessados em fazer doações para os imigrantes podem levar alimentos ao Centro Vida. O endereço é Avenida Baltazar de Oliveira Garcia, 2132, bairro Sarandi, Zona Norte de Porto Alegre