Ainda em obras, Mercado Público se reinventa dois anos após incêndio
Prioridade é reparar estragos e depois pensar em atualização

Dois anos depois do incêndio de 6 de julho de 2013, as imagens das chamas cobrindo parte do Mercado Público no Centro de Porto Alegre ainda são nítidas na memória de muitos gaúchos, principalmente de quem trabalha no local, é vizinho ou frequentador de um dos principais cartões postais do estado. As obras, que começaram naquele mesmo ano, avançam em ritmo normal, conforme a coordenação do estabelecimento, mas algumas dificuldades surgem antes da tão esperada reabertura total.
O incêndio foi provocado por um curto-circuito, iniciado em instalações elétricas de um restaurante, e levou quatro horas para ser controlado pelo Corpo de Bombeiros. Além de prejuízos materiais, não houve feridos.Relembre aqui.
Não há uma data concreta para a liberação do andar superior, mas uma estimativa: até o fim deste ano. Na área ficavam principalmente restaurantes. Por enquanto, os estabelecimentos estão realocados no primeiro piso.
Segundo o coordenador-geral do Mercado Público, Antonio Lorenzi, 85% das obras realizadas na parte danificada pelo incêndio já foram concluídas. Porcentagem que se refere à primeira etapa, ressalta o vice-prefeito Sebastião Melo.
Não fosse a dificuldade em encontrar um fabricante para repor as telhas destruídas pelo fogo, a restauração poderia estar mais avançada.
"Estamos em um processo de contratação da empresa para colocação. Nossa dificuldade é conseguir 700 metros quadrados de telhas do telhado central. Precisamos substituir pelas mesmas, do mesmo tipo, e a empresa que fabricou esse telhado não está mais fabricando", disse o coordenador do Mercado em entrevista ao G1, em sua sala, uma das poucas em funcionamento no segundo piso.
"As indústrias vão mudando, criando coisas novas", acrescentou. A troca de toda a estrutura não chegou a ser analisada. "Teria um custo fantástico", justificou, referindo-se ao alto valor.

Somente no que diz respeito ao telhado, Melo acredita que o trabalho realizado alcance 60%. Depois disso, o trabalho que pode ser considerado mais demorado é o funcionamento da energia elétrica em todo o espaço. "Esse é o desafio, fazer com que a energia funcione junto com a recuperação da parte de cima."
Porém, mais importante do que reinaugurar o andar superior, na opinião do vice-prefeito, é que o esforço para reabrir o Mercado pouco mais de um mês após o incêndio deve se reconhecido. "Mesmo que ele não esteja totalmente funcionando, ficou 38 dias fechado e já voltou. Essa governança tem sido diária, semanal", destacou.

Para a reforma da parte incendiada, a prefeitura de Porto Alegre foi beneficiada com uma verba do PAC Cidades Históricas, do governo federal. Foram liberados R$ 19,5 milhões. Até o momento, R$ 9,6 milhões foram usados.
A cada etapa do trabalho, é necessário que as empresas contratadas façam um relatório detalhado dos preços, incluindo material, mão de obra, entre outros. Esses dados são recebidos pela coordenação do Mercado e pela prefeitura, que revisam e enviam para o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ligado ao Ministério da Cultura. Especialistas conferem os valores e analisam se estão de acordo com a tabela do Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (Sinapi). E só então aqueles recursos são liberados.
"Nós não temos nenhuma reclamação, só elogios. Tudo o que mandamos eles veem e fiscalizam. Acham que a obra está em um ritmo em que poucas obras desde tipo se encontram", garantiu Lorenzi.
Para a restauração, foram contratadas as mesmas empresas que trabalharam na última grande reforma do Mercado, na década de 1990. O que, segundo Lorenzi, facilita o andamento das obras.
Fachada do Mercado Público ainda em obras (Foto: Tatiana Lopes/G1)Sem grandes mudanças, mas com melhorias
O trabalho visa a recuperação do que ficou danificado com o fogo, mas também ocorrem mudanças em pontos estratégicos. Como a substituição de algumas estruturas de madeira, que passarão a ser metálicas. Também são feitas melhorias em banheiros, na rede elétrica, na exaustão.
"Não tinha laje, agora fizemos uma laje de proteção também para o teto, isso dá uma segurança melhor", argumentou Lorenzi. "Como um primeiro orçamento foi feito logo após o incêndio, alguns detalhes vão aparecendo na medida em que se faz a obra", completou.
Por se tratar de um prédio histórico - inaugurado em 1869 -, a padronização precisa ser respeitada. Ou seja, grandes modificações não podem ser feitas. Apenas melhorias que se fazem necessárias, no que diz respeito a acesso, tecnologia e segurança, por exemplo.
Desejo de modernizar todo o prédio
Mercado foi atingido pelo quarto incêndio em2013 (Foto: Rhian Dantas/Divulgação)
O foco é concluir a obra na parte danificada no incêndio. O que pode ocorrer até o fim deste ano, ou quando as telhas forem encontradas e colocadas. Mas um sonho mais ambicioso povoa a mente de quem trabalha na restauração: a modernização de todo o prédio.
Não somente para deixar o ambiente mais novo e bonito, mas também mais adequado.
O problema é o custo. "Precisaria de mais uns R$ 15 milhões. Além dos R$ 19 milhões. Mas é um número aproximado, temos algumas noções", disse Lorenzi.
"Tudo custa dinheiro. E a prefeitura não tem. Estamos preparando orçamentos também de rede de água e refrigeração", informou o coordenador, que mantém esperanças, não em um futuro muito distante, de ver todo o prédio modernizado. "Achamos que podemos sensibilizar o governo federal no sentido de permitir que se faça a atualização de todo Mercado. É uma bela tarefa".
Outro recurso que a prefeitura também poderia buscar é o do seguro do Mercado, que fica em torno de R$ 16 milhões. Mas o valor seria concedido apenas em caso de o sinistro ter atingido todo o prédio. Por isso, há uma discussão em cima do tema, ainda sem definição.
Funcionário mais antigo acompanhou outros incêndios
Aos 70 anos, Wilson Bocca é o funcionário mais antigo do Mercado Público. Trabalha no local desde os 10 anos de idade quando, pontua ele, era permitido. Assim, teve a oportunidade de viver diversas épocas e acompanhar a evolução do prédio. Também presenciou, para sua tristeza, outros dois incêndios além deste último.
O Mercado Público passou, no total, por quatro incêndios. O primeiro foi em 1912, depois em 1976, 1979 e 2013. "Não foi fácil. Muita tristeza, a gente vive aqui dentro", disse seu Wilson ao G1, ao fazer uma pausa nos atendimentos da banca Empório 38, na tarde da última quinta-feira (2).

Rodeado de fregueses, que se aproximavam para comprimentá-lo, seu Wilson falou emocionado sobre o Mercado. Na opinião dele, o local já recuperou a vida normal após o último incêndio. Mas sente falta de frequentar os restaurantes do segundo piso, que foram queimados.
"A única pena é a parte de cima fechada, está demorando muito. Tinha muito restaurante lá, sempre lotava de noite, as pessoas se sentiam mais seguras ali do que em botecos na rua. Tinha o artesanato também, o banco… Eu ia sempre lá em cima."
Além dos incêndios, o funcionário mais antigo também viu o Mercado se recuperar após diversas enchentes que atingiram a capital gaúcha no passado. "Era todo ano, alagava um palmo aqui dentro", recordou.
Em todos os 60 anos de atuação no local, ele aponta como principais mudanças o movimento de clientes e a estrutura, que foi crescendo ao longo do tempo. Antigamente, como ele lembra, não havia cobertura, o mercado funcionava a céu aberto.
"Hoje tem um pouco menos de movimento, porque antes não tinha supermercado, então todo mundo vinha comprar aqui", comparou.

2014, quando completou os 60 anos de Mercado
(Foto: Ricardo Giusti/PMPA)
Aposentado há 20 anos, seu Wilson foi homenageado pelo prefeito José Fortunati com uma placa, pela sua dedicação com o trabalho no Mercado. E ele nem pensa em parar. "Os fregueses não me deixam sair!", disse, abrindo um largo sorriso, que foi respondido com outros pelos clientes que estavam ao redor do balcão.
"Eu adoro isso aqui. Sou apaixonado pelo Mercado. É a minha vida. Foi com esse trabalho que criei meus filhos", completou. Seu Wilson tem três filhos e seis netos, um deles com 22 anos de idade.
Recém criada, loja virtual também aponta para modernização
Faz pouco tempo, cerca de um mês, que a loja virtual do Mercado Público foi criada. Os clientes podem adquirir os mesmos itens oferecidos no espaço físico do Mercado, e pelo mesmo preço cobrado nas bancas, mas com taxa de entrega inclusa. O valor varia dependendo da região.
O cliente precisa acessar o site e fazer seus pedidos. Depois, é só aguardar em casa. As entregas são feitas de bicicleta (reservada apenas para bairros mais próximos ao Centro) ou de moto, em caso de distâncias maiores. E podem ser feitas em até uma hora. Há opção ainda de agendamento de data e horário para receber os produtos.
Os produtos estão organizados por banca, categoria e valor. Cada cliente também pode montar listas e favoritar as bancas preferidas, para facilitar na hora da compra. Atualmente, a loja virtual tem cerca de mil itens, entre produtos para confeitaria, chocolates, castanhas, erva-mate, cafés, produtos naturais, entre outros. Novas bancas deverão ser cadastradas em breve.
Também no mês passado, foi publicado o perfil do Mercado no Instagram, rede social de fotos. É mais um meio de divulgar os produtos e aproximar as pessoas do prédio histórico, que é cartão postal de Porto Alegre.