"A cada nove gaúchas, uma terá câncer de mama", afirma oncologista que atua em Caxias
A cada nove gaúchas, uma terá câncer de mama.

Aos 31 anos, Tomás Reinert carrega significativos cargos e experiências na área da oncologia. É diretor científico do Centro de Pesquisa da Serra Gaúcha (Cepesg), coordenador de serviço de oncologia mamária do SUS, em Canoas, e oncologista do Instituto DeVita, de Caxias.
Nesta entrevista, Reinert fala dos avanços da medicina e como os tratamentos chegam às clínicas e hospitais da Serra. Segundo ele, há diferença, sim, nos tratamentos oferecidos pelas redes pública e privada.
Pioneiro: Qual a importância de descobrir um câncer de mama precocemente?
Reinert: Toda a importância. A regra é: quanto mais cedo a descoberta, mais chances de cura. É uma doença que não pode ser totalmente prevenida, porém, quando o diagnóstico é feito em estágio inicial, a chance de cura é superior a 90%.
O que isso influencia no tratamento?
Mais chances de cura com tratamentos menos agressivos. O câncer de mama é composto por uma série de doenças diferentes. O tumor menor de 2cm e que não avançou para os linfonodos é tratado com cirurgias e medicações menos agressivas, e as chances de cura são maiores. Existem diferentes graus de agressividade do tumor. O triplo negativo é o mais agressivo.
As novas medicações descobertas nos grandes centros e em outros países chegam a Caxias?
As medicações e tratamentos mais modernos estão disponíveis na rede privada. O nível da medicina é muito alto em Caxias do Sul. Na maioria dos casos, o tratamento que oferecemos é igual ao realizado em grandes centros nos Estados Unidos.
O problema está na rede pública. Existe uma grande disparidade entre os dois sistemas. Um dos exemplos são os tratamentos com anticorpos monoclonais, que além de aumentar a chance de cura em tumores iniciais, melhoram a qualidade de vida e prolongam muito a sobrevida de pacientes com doença metastática. Esses tratamentos dificilmente chegam ao SUS. A campanha Por Mais Tempo, da Femama (Federação Brasileira de Instituições Filantrópicas de Apoio à Saude da Mama), objetiva conscientizar a população para diminuir essa disparidade.
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Quais medicamentos estão revolucionando o tratamento e aumentando a qualidade de vida do paciente?
A grande revolução está nos remédios que agem sobre os mecanismos de resistência das células cancerígenas, poupando assim as células normais do nosso corpo. O trastuzumabe (Herceptin) é um deles. No entanto não pode ser aplicado em todos os casos, somente nas pacientes com tumores HER2 positivo (cerca de 20%). A imunoterapia, grande revolução da oncologia e que hoje já é muito eficiente nos cânceres de rim e melanoma, está em estudo e também deve ser incorporada ao de mama.
Onde acontecem os melhores tratamentos contra o câncer de mama?
O tratamento feito em Caxias, em muitos aspectos, se equipara ao dos grandes centros. O que falta é o acesso às novas tecnologias, um centro de pesquisa clínica que possibilite participar dos protocolos que estão em desenvolvimento no Exterior e em instituições nacionais de ponta. Essa é uma das minhas missões em Caxias. Desenvolver a pesquisa em oncologia mamária e interagir com especialistas de outras instituições para termos acesso ao que existe de mais atual na luta contra essa doença. Uma em cada nove mulheres gaúchas vai ter câncer de mama, e todas merecem acesso ao que há de melhor.
Existe a possibilidade, no futuro, de aplicar um tratamento sem tantos efeitos colaterais?
Já ouve uma evolução. Hoje a cirurgia é menos agressiva. A radioterapia agride menos os tecidos sadios. A quimioterapia está cada vez mais eficiente e melhor tolerada. As terapias alvo atingem somente as células doentes. No entanto, é importante ressaltar que cada caso é um caso. Cada tratamento é um tratamento.
O senhor acha que será possível descobrir um câncer por exames de sangue?
No câncer de próstata já acontece, muitos casos são detectados através do exame de PSA. No câncer de mama estamos em processo de estudo, na busca por esse tipo de exame, denominado biomarcador. Existem muitos avanços, como a tecnologia de células tumorais circulantes, já muito estudada em centros americanos, porém não disponível no Brasil. Minha opinião é que isso vai acontecer no futuro, mas vai demorar. Nos próximos anos o papel dos exames de imagem (como mamografia e ecografia) e de patologia (como as biópsias) continuarão sendo indispensáveis.
Qual fator impede a cura de alguns tumores de mama?
O câncer é um conjunto de várias doenças, é multifatorial. A maioria é curável. Não existe um único tratamento que vai curar o câncer de mama. Cada caso tem um tratamento específico.
Quando se percebe que há chances de cura?
Todo câncer de mama que ainda não desenvolveu metástases à distância é potencialmente curável. Curamos a ampla maioria dos tumores descobertos por mulheres que fazem a mamografia conforme indicado. Essa é a importância de campanhas como o Outubro Rosa.